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PRESS RELEASE NR.01/UNITA/
C.P.C.P/2001

MEMORANDUM ON NON-COMPLIANCE BY THE MPLA 1975-1998

CARTA ABERTA AOS POVOS DE EXPRESSÃO PORTUGUESA

Carta de Sua Excia. o Presidente da UNITA - Dr. Jonas Malheiro Savimbi 

Aos Representantes da Igreja Católica 

Saudações cordiais. 

É com elevada satisfação que tenho a oportunidade de escrever a Vossas Excias. Reverendíssimas. Faço-o porque todo e qualquer momento é bom para comunicar, especialmente perante o elevado desafio da paz (através do diálogo). Também o faço para vos incentivar a participar vivamente nesta difícil tarefa que o momento nos impõe. 

A minha vida tem sido levada com o sentido de missão e nisto estamos todos ao serviço do mesmo povo, pelo qual, tarde ou cedo, todos teremos de responder diante de Deus. 

Consciente da influência da Igreja na sociedade, tenho acompanhado com muita atenção e muita abertura, as suas iniciativas. Como sabeis, a Direcção da UNITA respondeu afirmativamente aos desafios do Congresso Pró Pace, realizado em Julho de 2000, tendo enviado: 

Saudação ao Congresso e aos seus participantes; 

Antecipadamente, alguns temas, como contribuição da UNITA à reflexão e aos trabalhos. 

Confirmamos a boa recepção destas mensagens. Também importa referir que a Direcção da UNITA, através do Comité Permanente emitiu um Comunicado (também entregue aos responsáveis da Igreja Católica) respondendo afirmativamente às conclusões do Congresso Pró Pace, tendo-se disponibilizado a um trabalho comum para a Paz. 

Não existiu da nossa parte, nenhuma rejeição ou lacuna que possa ser usada por quem quer que seja, no sentido de nos ser imputada qualquer responsabilidade no adiar da aplicabilidade de tais conclusões e propostas de Paz. Como sabeis, porque foram publicamente pronunciadas, ocorreu infelizmente uma rejeição do Governo às decisões do Congresso Pró Pace. Deste modo, não devemos perder tempo ou confundir as mentes. 

A UNITA está há muito preparada para um debate interno, amplo e participativo, tendo Angola e os Angolanos como elementos centrais. Esta guerra foi-nos imposta e tivemos de assumir e envolver-nos para garantirmos a nossa sobrevivência. Aqui não pode haver lugar para sofismas, pois as declarações da opção militar do regime, também têm sido inúmeras e publicas. Só não vê quem pretende continuar cego. 

Precisamos de nos conhecer. 

Porque luto ? Como è do vosso conhecimento, estou a caminho dos 67 anos. Depois da guerra de libertação da dominação colonial portuguesa esperava uma vida tranquila. Mas infelizmente isso não aconteceu. 

A guerra não é solução tendo em conta todos os males que causa. Como actor e vitima, tenho pago muito caro e na carne os efeitos desta guerra. Perdi companheiros, perdi amigos, perdi familiares e mesmo os meus filhos são hoje vitimas da falta de regras e de cegueira do MPLA e do seu presidente José Eduardo dos Santos. No seu instinto de repressão até as crianças têm sido usadas pelo regime do MPLA, atentando perigosamente à estrutura da FAMILIA, elemento central da nossa cultura e da nossa vivência e da nossa sociedade angolana. 

Mas, apesar de tamanhos e tão graves atentados, confesso que me senti entristecido, ao não escutar das "balizas" morais da nossa sociedade, nenhuma voz de moralização e condenação contra tais procedimentos que nada têm a ver com a política. Não se está a atentar apenas contra o Jonas Savimbi e seus filhos. Está a atentar-se contra toda a gente, contra um povo que acredita em valores sublimes de liberdade e de uma cultura africana onde a família é o elemento central. 

Recordo-me muitas vezes dos ensinamentos do Irmão Cordeiro (marista que muito me influenciou ao longo da minha vida). Ele dizia que a missão de reconciliação da Igreja, não é apenas no sacramento da confissão, mas também no apaziguamento dos ânimos e dos corações. 

Mas... para cada um de nós afinal o que significa a Paz? O que estamos dispostos a dar por ela? Onde é que o governo/presidência/regime do MPLA abdicou de algo e em que sentido é que o MPLA se empenhou na Paz e na Reconciliação? De que é que abriu mão? 

Do Alvor a Lusaka a historia registou - e eu não esqueço - que sempre que o MPLA aceitou negociar é porque já tinha preparada a arma de eliminação do adversário político, atribuindo ainda por cima as culpas à vitima. De Alvor a Lusaka o dialogo de reconciliação sempre falhou. 

Eu e a UNITA assumimos riscos: enviamos quadros, muitas vezes para Luanda, num gesto de boa fé. Vimos os nossos negociadores a serem assassinados. Sempre perdemos muita gente. Todas as nossas casas, as clínicas nos bairros, as delegações, os carros..., tudo foi destruído. Para quem tinha a guerra como opção, como é comum vermo-nos acusados, vemo-nos apenas como alvos e vitimas. Até as sanções até aqui aplicadas apenas a estados, viram a UNITA como alvo. 

Fiquemos com a experiência como referencia e como memória, para não mais ser repetida. Trabalhemos sem exclusões de quem quer que seja, muito menos dos protagonistas. Seria estúpido eu pensar que poderia resolver uma contenda sem envolver os participantes. 

Há uma serie de situações injustas como há bem pouco tempo fez notar Holden Roberto no "Fórum sobre as múltiplas consequências da guerra em Angola". Os males de Angola já não se conseguem justificar todos na guerra. Há muita irresponsabilidade, incompetência gritante, roubo descarado e desvios criminosos das riquezas do país, etc, etc... 

A guerra é absurda. Estou completamente de acordo com a citação que repetidamente os Bispos fazem do Pe. António Vieira: "A guerra é aquele monstro que, quanto mais come e consome, tanto menos se farta... é aquela calamidade, em que não há mal algum que, ou não se padeça ou não se tema". Para nós teve apenas uma finalidade: a salvaguarda das nossas vidas. Que fazer perante o projecto do MPLA que é de eliminar ou fazer calar pura e simplesmente todos quantos surgem como verdadeira oposição? Estivéssemos nós em Luanda, em Novembro de 1992, no espirito de negociações então em curso, estaríamos ainda vivos? Os nossos Dirigentes (Salupeto Pena, Jeremias Kalandula Chitunda, Alicerces Mango) que na altura se encontravam em Luanda onde estão? Até Embaixadas Internacionais lhes recusaram apoio. E em que condições ficaram os restantes? 

E nessa altura fez impressão o silencio da "Voz dos sem voz" como continua impressionante hoje o silencio perante a política da "morte lenta" a que está sujeita a maior parte do nosso povo. 

Depois dos Acordos de Lusaka, o MPLA não continuou a tomar cidades, a prender e a matar gente nossa? Lusaka foi posta em causa desde o seu início e também aqui o silencio fortaleceu o autor destas violações. E a presença de tropas angolanas nos 2 Congos, sem a aprovação do Parlamento e sob a proibição de movimentos de tropas, porque ainda em plena aplicação do "Protocolo de Lusaka"? E como acabou o nosso Ben-Ben? E as sanções continuaram a somar-se contra a UNITA. Não é escandaloso? 

Não está o MPLA a falar de paz ao mesmo tempo que começou mais uma ofensiva contra nós, a descarregar armamento e a fazer recrutamento forçado neste preciso momento, como toda a gente sabe (inclusivé voz autorizada que fala da "exploração ignóbil da nossa juventude nas matas")? 

Em tudo isso continuam a surpreender-me alguns pronunciamentos e atitudes de indiferença, parecendo revelar simplesmente antipatia natural contra a UNITA e/ou contra a minha pessoa. 

Estes e outros factos criam em nós muitos motivos de dúvida, perplexidade e desconfiança. 

Se é verdade que, como se diz por ai, as Igrejas Protestantes se identificaram mais com a nossa causa não é menos verdade a participação dos católicos na luta pela independência do nosso país. Não reconhecê-lo seria uma ingratidão que brada aos céus e que a historia jamais perdoaria. 

Os que me conhecem melhor poderão um dia situar-me bem entre emoções fervorosas das confissões religiosas. Nasci e cresci num lar protestante. Tive a minha oportunidade de me formar como homem com os irmãos Maristas. O Irmão Cordeiro falecido em 1996 foi um pai para mim. Temo a Deus mas não participo na divisão das Igrejas. Não é a minha missão muito menos aproveitar-me delas para fins políticos. 

Contudo seria bom ver uma participação mais consequente da Igreja Católica na conjuntura actual para que não continue a prevalecer a ideia de que a UNITA é de mentalidade protestante. Também penso que o ideal é uma colaboração autentica e desinteressada sem confusão de domínios porque então todos seriamos condenados ao fracasso. 

Gostaríamos de ver as iniciativas da COIEPA e do PRO PACE a andar para a frente. Pensamos que existe um papel histórico e relevante que podem prestar ao povo angolano incentivando a reconciliação. 

O nosso objectivo foi sempre o de paz e de reconciliação. Penso que os angolanos ainda não esqueceram que até há bem pouco tempo falar de paz e reconciliação era denunciar-se como elemento da UNITA. E os Senhores padres sabem quantos obstáculos tiveram em falar da paz. 

Hoje todos podemos falar de paz graças à persistência da UNITA. Então vamos juntar os esforços para chegarmos a essa tão almejada paz para o nosso povo. 

São demasiado profundas as razões de divisões entre os angolanos autóctones. A Igreja Católica, por sua vocação divina e pela sua experiência multissecular, pode empenhar-se em criar um ambiente de confiança entre os angolanos. 

As questões suscitadas ao longo destas linhas não são uma acusação mas um esforço de reflexão que nos ajude a caminhar e a lutar juntos para a verdadeira libertação e independência total do nosso povo. 

Unidos venceremos! 

Que Deus nos abençoe a todos, abençoe a nossa querida terra. 

Terras de Angola, aos 13 de Maio de 2001 

Jonas Malheiro Savimbi Presidente da UNITA

Última actualização/Last update 14-05-2001