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URBANO CHASSANHA

angola

nonde os guerreiros  não dormem

 Dedicatória

Introdução

— Causas

            1 — Exclusão
            2 —  Tribalismo
           
3 — Racismo
           
4 — Religião

— Acordos de Alvor

— Consequências do Acordo de Alvor

            1 — Resistência

— Acordos de  Paz de Bicesse

— Consequências  dos Acordos de Bicesse

— Acordos de Lusaka

            1 — Violações do Governo

            2  — Violações da UNITA

— O retorno à guerra

— Operação restauro

— O regresso à guerra de guerrilha

— O futuro

Conclusão

Anexo I  Plano Estratégico de Implosão da Unita Militarista

                           (Segredo de Estado)

Anexo II — Cronograma de acções para a conclusão dos Acordos  de Lusaka (Confidencial)

 

 Dedicatória

Dedico este livro à memória do meu grande e velho amigo Felizberto Salvador Ramos, um algarvio, como queria que lhe chamassem, e que conhecia Angola e o pensar dos seus povos como poucos angolanos. Encorajou-me sempre a prosseguir com os meus ideais, fossem quais fossem as dificuldades. Dizia amiúde que o valor de um homem se media pela consequência e persistência com que defendia os seus ideais perante as contrariedades. Velho amigo, este livro é a prova que continuo firme nos meus propósitos. As dificuldades são enormes mas sigo em frente. Até um dia destes!...

Dedico-o também à memória dos milhares de angolanos que pereceram e continuam a perecer no conflito angolano e dos quais ninguém conhece sequer a sua última morada. 

Dedico-o ainda a Wong Wei Sam, meu amigo das horas difíceis e meu mestre em arte de guerra e sobrevivência. Além do nome, o que sei dele é tão pouco que nem me permite procurar a sua família e mostrar-lhe a sua sepultura. Sei que era moçambicano de origem ch   inesa, sei que trabalhava na Companhia Mineira do Lobito, em Jamba Mineira, na Província da Huila, e nada mais. Conheci mais do seu carácter do que da sua identidade. Corajoso como nunca vi ninguém, viu-se envolvido num fogo cruzado de uma guerra que não lhe pertencia apenas para sobreviver. Nem isso ele conseguiu!...

  

                                                                             INTRODUÇÃO

 Numa metáfora deveras curiosa, um colega meu comparava Angola a uma noite e filosofava assim: «Os militares não dormem, os políticos não acordam e por isso mesmo o povo não pode sonhar

Não me considero dono da verdade absoluta nem penso que alguém possa ter esse tipo de pretensão. Decidi escrever este livro apenas com o objectivo de proporcionar à opinião pública uma outra visão da problemática angolana porque vivi vinte longos anos do outro lado da barricada, com a UNITA. A 5 de Dezembro de 1995, segui para Luanda como Chefe Adjunto da Delegação da UNITA à Comissão Conjunta, órgão reitor da implementação do Protocolo de Lusaka, tendo posteriormente, ao abrigo dos mesmos Acordos, tomado posse como Deputado à Assembleia Nacional, a 7 de Maio de 1997.

Por experiência pessoal, fiquei com a certeza de que os historiadores — e não coloco em causa a sua idoneidade nem tão-      -pouco a sua honestidade — escrevem a história da forma que a sentiram, dependendo sempre do ponto onde se encontravam, deste ou daquele lado da trincheira. Acrescente-se a isso ainda o facto de haver simpatias pessoais que, num determinado momento, podem  influenciar a  maneira de pensar, tentando compreender os fundamentos de uma das partes em detrimento da razão que a parte adversa possa ter. Trata-se indiscutivelmente de um ponto de vista meramente pessoal.

Quando eu era comandante de unidades militares, costumava fazer depois dos combates aquilo que designava dinâmica ope­racional. Na presença de todos os soldados, encorajava cada um dos participantes a descrever o combate como forma de corrigirmos o que nos correra mal. A primeira vez que o fiz fiquei bastante surpreendido porque, embora estivéssemos a falar do mesmo combate, estava a ser colocado perante duzentos ou trezentos combates completamente diferentes... As diferenças chegavam mesmo a ser impressionantes. Salvo raras excepções, apenas a data e o nome do local onde o combate se efectuara coincidiam. No restante tudo diferia.

Ora se o relato difere substancialmente num simples pormenor que é uma batalha numa guerra, imaginemos quanto será abismal a diferença de pontos de vista quando tivermos de falar sobre a história de um país.

Poderemos eventualmente estar a estudar uma história completamente adulterada porque se trata do ponto de vista de uns poucos. A verdade ficará situada algures entre a história do vencedor e do vencido, e, mesmo assim, no que me diz respeito, com reservas. A história é sempre escrita pelos vencedores por mais legítimas que sejam as razões dos vencidos. As razões destes mantêm-se em estado latente, podendo a qualquer altura e numa determinada circunstância exacerbar-se. A história torna a repetir-se, como é usualmente dito. Repete-se — se tal é possível — porque não teve um tratamento adequado.

O Conde de Marenches, antigo chefe dos serviços secretos franceses, destrinçou de uma maneira curiosa a política e seus contornos. Ele chamava política aos assuntos relacionados com interesses geo-estratégicos da França. E apelidava de «politiquice»  a política doméstica francesa.

Mesmo que eventualmente não tivéssemos toda a gama de informações para discorrer sobre a política de Angola, no conceito do Conde de Marenches conseguiríamos facilmente ver que o nosso País, devido à sua localização geo-estratégica no contexto do Atlântico Sul, e devido aos seus enormes potenciais recursos naturais, é, e será sempre, não «uma trincheira firme darevolução em África», como se pretendia em plena guerra fria, mas sim um país permanentemente cobiçado.

Num passado recente, Angola fazia parte do conflito da África austral. Agora faz parte do conflito da África central. Desta forma os Angolanos ficarão fazendo permanentemente parte das políticas de determinadas potências, que, aproveitando-se das nossas «politiquices», sempre tão mal geridas, transformam este enorme e portentoso País num verdadeiro caos. No caso interno de Angola, portanto na nossa «politiquice», é um exercício absolutamente inútil procurar culpados, quando estamos perante uma catástrofe e sobretudo porque somos dotados de inteligência necessária para saber que a nossa «politiquice» depende da «política» dos outros.

O mais lógico terá de ser, forçosamente, colocarmos as nossas inteligências à procura de uma solução para sairmos da crise, ao invés de consumirmos à procura de culpado o que nos resta de energias.

É preciso ser-se humilde e reconhecer rapidamente que os culpados são apenos os incapazes de compreender aquilo que está à vista de todos. É uma ilusão pensarmos que, por a guerra fria ter terminado, também terminaram os interesses. Sejamos suficientemente sagazes para conseguirmos evitar que os interesses estrangeiros nos continuem a dividir.

Angola, como um todo, terá imensas vantagens em negociar com quem lhe aprouver, fazendo respeitar o princípio de reciprocidade de vantagens. Cuidemos pois rapidamente da nossa «politiquice», encontrando soluções para que a paz que tarda tanto a chegar passe a ser uma constante e partamos confiantes para o desenvolvimento e progresso social.

Quando estudamos história, ressaltam imediatamente duas questões fundamentais : as causas e as consequências. Falaremos das causas.

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Última actualização/Last update 14-05-2001